10 passos para destruir sua Ecovila antes mesmo de começar

Muitas pessoas sem experiência alguma em empreendimentos coletivos sonham em iniciar uma ecovila, porém na maioria das vezes, os conflitos iniciam antes mesmo do projeto sair do papel. Veja como destruir o sonho da Ecovila em 10 passos.

Durante os 10 anos que tenho trabalhado no terceiro setor, tenho acompanhado muitos projetos de ecovilas em todo mundo. É um assunto que sempre me despertou muito interesse, desde que descobri os “ashrams” ou monastérios onde se pratica Yoga quando residi na Inglaterra.

Desde então tive a oportunidade de visitar alguns projetos bem antigos, como a comunidade “Hidden Valley Ashram” em Escondido, Califórnia, que existe desde a década de 70, dentre outros projetos no Brasil, Inglaterra e Índia.

Cada vez mais fascinado pelo assunto, devorei livros, vídeos e artigos e tudo mais que poderia encontrar sobre ecovilas e comunidades espirituais, além de ter conversado com muitas pessoas que residiram em ecovilas e comunidades em todo mundo.

Nos últimos anos, têm sido cada vez mais comum receber alunos no Instituto Pindorama que têm um objetivo de se capacitar para fundar uma Ecovila.

Resolvi então criar este guia de como você pode destruir o seu sonho e de seus amigos ao embarcar num empreendimento tão complexo sem estar devidamente preparado.

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#1 – Ausência de Contratos e Modelo Jurídico da Ecovila

Para começar a traçar o “mapa do inferno” como diz ironicamente um amigo que morou por anos em uma comunidade espiritual no interior de São Paulo que terminou com caso de polícia e uma ação judicial milionária, comece seu projeto sem clareza nenhuma na estrutura social e jurídica da Ecovila. A legislação brasileira oferece diversas formas de evitar problemas futuros num empreendimento como este, porém cada projeto, por seu único, pode ser registrado de diversas formas: clube, associação, condomínio, loteamento, etc. O importante é definir desde o início o que acontece se as coisas derem errado.

O que acontece se um membro quiser sair do projeto? Como será a devolução da parcela investida? Ou se ele não quiser sair do projeto e nem da sua fração ideal, mas repentinamente mudar seus hábitos ou comportamento de modo que não esteja alinhado com as expectativas dos demais? Ignore este fato e já comece a fundar seu projeto logo no início.

#2 – Para quê acordos? Somos todos UM!

Bons contratos fazem bons amigos, bons acordos fazem relacionamentos perdurarem. Se o grupo não deixar claro desde o início quais as necessidades de cada um, suas expectativas, sentimentos e não adotar uma forma de formalizar acordos, o seu projeto pode não passar nem das primeiras reuniões.

#3 – Modelo de Governança

Dentro da minha pesquisa, pude constatar que as comunidades mais harmoniosas e duradouras possuem um sistema hierárquico baseado numa relação de respeito pelos líderes espirituais da comunidade ou ashram. Existem modelos de “centro vazio” ou de governança circular ou horizontalizada. Cada grupo possui um grau de maturidade e deve adotar um modelo que esteja adequado com esta situação. O brasileiro, povo corrupto por natureza, criado com a “lei de Gerson” onde sempre busca tirar vantagens, deve tomar muito cuidado quando escolher o modelo de governança da ecovila. Nos países onde a vida em comunidades é secular, como Israel, Alemanha, etc, observo mais maturidade na gestão. No Brasil poderíamos estudar os modelos de governança das tribos indígenas como bons exemplos a se seguir.

#4 – Qual é a nossa cola?

Para continuar traçando o “mapa do inferno”, reúna no grupo de formação de sua ecovila, pessoas com ideais e hábitos bem diferentes. Pesquisas mostram que ecovilas de sucesso possuem uma “cola” que une as pessoas, geralmente uma religião em comum, uma prática espiritual em comum, como por exemplo a Yoga ou meditação, ou ainda uma ideologia em comum, como a Permacultura. Quando esta “cola” não existe, as chances de fracasso serão maiores. Não pode ser uma cola fraca, tem que ser forte!

#5 – Não respeite o espaço do outro

Nos primeiros anos do Instituto Pindorama, havia apenas uma construção que era compartilhada por todos. O resultado? Um relacionamento conjugal de 4 anos totalmente abalado e uma separação. Outra iniciativa urbana que conheço, reuniu jovens pais, cerca de 3 casais, em uma casa coletiva. O resultado: troca de casais, conflitos e separações.  Um design e planejamento adequado devem permitir a privacidade de cada família ao mesmo tempo em que a comunidade é integrada numa área comum, é um desafio a ser alcançado ao logo do processo de planejamento e construção.

#6 – Pioneiros X Assentados

A natureza humana é muito rica e diversa. Se você falar que quer começar uma Ecovila em seu sítio, verá que alguns amigos vão aparecer no dia seguinte com uma barraca de camping e uma enxada na mão, enquanto outros vão te falar que só irão lá quando tiver uma casa e um banheiro, ou que preferem ficar na cidade trabalhando e captando recursos para que o trabalho no sítio possa ser desenvolvido. Se você não compreender que existem pessoas com naturezas diferentes e esperar que todos tenham o mesmo pique nos mutirões, os conflitos já podem começar por aí. Cada um deve contribuir com suas habilidades nos diferentes âmbitos e esferas de atuação.

#7 – Não faça um plano de negócios

Mudar para a Zona Rural sem um plano de negócios para gerar receita para os envolvidos no projeto é um passo perfeito para começar o projeto com o pé esquerdo. Conseguir manter a família através de rendimentos de uma propriedade rural é uma ciência que vai muito além da agronomia, envolvendo muitas técnicas modernas de modelos de negócios, empreendedorismo e permacultura. Se o grupo não tiver isto em mente, o sucesso do projeto estará comprometido.

#8 – Coloque um anúncio na Internet

No Brasil, geralmente temos a liberdade de escolher com quem vamos nos casar, o que não ocorre em países como a Índia. Mesmo assim, estamos vendo um aumento nos casos de divórcio e muitos conflitos entre casais. Agora imagine você que quer começar uma ecovila, colocar um anúncio na Internet e começar a receber pessoas em seu projeto com as quais não possui nenhum vínculo, intimidade ou vivência. A amizade pode ser construída, mas as chances de sucesso são maiores com grupos de amigos que já possuem um elo de anos de vivências, com seus altos e baixos, e que ainda assim perduram.

#9 – Torne-se um senhor feudal

Se você é o dono do sítio e quer chamar amigos para morar na sua ecovila, sem instituir uma forma de posse para cada um através de um contrato, ou algo assim, um historiador poderia chamar seu empreendimento de um “feudo”. A queixa mais comum que ouvi nestes anos foi de pessoas que foram morar em sítios de amigos e que deram seu sangue, construindo, investindo tempo e recursos financeiros e que depois ou foram expulsas ou saíram com uma mão na frente e outra atrás, tendo que começar do zero sem nenhuma ajuda  pois não havia um contrato, estavam apenas servindo um senhor feudal.

#10 – Não se capacite

Vejo muitas pessoas que iniciaram projetos sem nunca ter realizado uma formação como o “Gaia Education” ou um PDC – Permaculture Design Course, ou que nem mesmo participaram de vivências em outros espaços. Apenas possuem uma terra ou uma grana guardada e boas intenções. Como já diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio. Se quiser finalizar o mapa do inferno com um “gran finale”, comece seu projeto sem ter um bom embasamento em metodologias de permacultura, resolução de conflitos, comunicação não-violenta ou sem ficar ao menos alguns meses morando em ecovilas, ashrams ou comunidades. #ficaadica

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Como fazer uma ecovila? Como funciona uma ecovila?O que é uma ecovila?

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