Ao invés de segregação: integração!

Hoje vamos falar sobre quando ao invés de segregação, há integração. O trabalho a seguir foi
feito no Mato Grosso, num assentamento rural de reforma agrária. É senso comum que nesses tipos
de fundação, as pessoas vão para uma terra e a coisa acaba.
O desafio é: como elas vão comercializar o produto? Como vão se organizar coletivamente? Como
vão trabalhar com agroecologia?
As pessoas beneficiadas pela reforma agrária, acabaram ficando isoladas numa área 100 km distante
de municípios onde elas poderiam comercializar seus produtos e a situação acabou se complicando.

Um ONG foi convidada a ajudar dentro da lógica de organização social da comunidade e montou
uma associação onde as questões de coletividade começaram a ser trabalhadas, como por exemplo:
“Olha, vamos vender o produto todo mundo junto, se cada um andar 100 km pra vender seu
produto é uma loucura, mas se a gente comprar um caminhãozinho pra levar nossos produtos, a
gente consegue comercializar. O tratamento de água tá complicado, vamos começar a pensar em
tratamentos biológicos…
A partir disso, todo um trabalho para ajudar a comunidade a se estabelecer naquele local foi feito.
Esta é a AgroVila:

Tomaz foi convidado pela ONG e pela comunidade para fazer o trabalho de construir a loja
comunitária, um espaço que serviria para mostrar aos comerciantes dos municípios nas redondezas,
os produtos produzidos no assentamento.
A ideia era empregar técnicas de bioconstrução.
Ao chegar ao local, foi solicitado a ele que fizesse a construção com superadobes – técnica que
consiste em utilizar sacos cheios de terra compactados na edificação.
Nos primeiros dias, o trabalho fora entender de onde viriam os sacos que seriam enchidos com terra
e compactados. O primeiro obstáculo foi que a região não oferecia esses sacos em grandes
quantidades. A procura pelos mesmos se estendeu a Cuiabá, porém sem sucesso.
Pesquisou-se então algum fabricante que fornecesse a bobina de virar o saco, mas a localização
paulistana da fábrica fez com que a ideia de utilizar o superadobe fosse descartada.
Com um prazo curto e mais de 15 dias destinados à procura dos sacos, sobravam 13 dias para o
término do trabalho. A conclusão foi procurar entender qual era a melhor técnica pra o local. Depois
de entendê-la, aí sim a loja seria erguida.
A partir daí, começou a construção de uma casinha de sementes:

O lugar ficaria ao lado de um viveiro e cada parede seria concebida com uma técnica de
permacultura afim de selecionar a melhor para a construção desejada.
Foi detectado que na região havia abundância de terra e palha de arroz. Outra coisa em fartura eram
as madeiras provenientes de um cemitério de madeiras – existe na região muitas madeireiras que
detém o direito de extração de recursos de uma quantidade X de árvores, porém as mesmas
extraem muito mais do que lhes é permitido e para fugir das eventuais fiscalizações, elas mantém
um “olheiro” na estrada e este, avisa quando há a presença de fiscais. Assim, elas desovam a
madeira “extra” nos cemitérios e fogem das multas.
Com esses recursos, a construção da casinha de sementes começou. Como era um período bem
seco, os tijolos que normalmente demorariam de uma semana a 10 dias para estarem prontos para
o uso, secavam em 3 dias e ela rapidamente pôde ser assentada.

A cobertura foi feita fora feita com uma estrutura chamada “parabolóide hiperbólica” – que consiste
em um plano torcido onde são colocadas as ripas. A torção melhora a estrutura e reduz a matéria-
prima. Por cima, foram colocadas terra e palha de arroz, o que garantiria o conforto térmico, mas
não a proteção contra a chuva… Sendo assim, em cima dessa estrutura, aplicou-se uma capa fina de
ferro cimento – uma tela de passarinho com argamassa de cimento areia.

Painéis de taipa leve – técnica que mistura serragem e solo-cimento – também foram produzidos. É
possível pré-fabricar os painéis, então a ideia fora fazer uma linha de pré-fabricação de painéis para
que eles pudessem ser colocados em meios de transporte e levados para agricultores que morassem
distante de pontos de energia e recursos que facilitariam a construção. Esses painéis têm janelas que
podem ser abertas e fechadas e também garrafas que ajudam na iluminação.

Paredes de pau a pique foram erguidas:

E assim, com várias técnicas diferentes, a casinha de sementes ficou pronta:

No canto direito há o espaço feito pra colocar o substrato e no canto superior esquerdo, há alguns
canos onde ao se puxar uma alavanca, o substrato e a semente caem no saquinho e vão para a obra.
Após a construção da casinha de sementes, ficou acertado que Tomaz voltaria ao local para a então
construção da loja. Após 1 ano e meio sem nenhum retorno, ele recebeu um e-mail com o nome da
comunidade – Entre Rios – no assunto. Era um jornal da comunidade, numa das páginas contava-se
que a “Casa do Agricultor” já estava de pé.
“É pra isso que a gente trabalha com arquitetura apropriada, bioarquitetura, bioconstrução… É pra
gente não ter mais necessidade, é pra que as pessoas se apropriem. Eles olharam, aprenderam,
elegeram a melhor maneira de construírem, desenharam a construção e edificaram. Quando pronta,
me mandaram o jornal pra falar: ‘fizemos, você também pode!’ que é o grande recado que a
permacultura quer trazer. Como diz o grande pedagogo Tião Rocha, isso se chama ‘empodemento.”

“O traço”, citado tantas vezes e de tantas formas neste artigo, pode promover a autonomia.
A questão é: quando ele a promove? Porque? Como?
Segundo Tomaz, isso tem a ver com o processo. Em sua avaliação, além da técnica, tem relação com
a beleza.
“Era bonito, tentamos desenhar, fazer com que a maneira de construir fosse fácil e simples. Não
basta a técnica pra ter a apropriação, a beleza é uma ferramenta fantástica que nós temos. Mas a
questão é: que beleza? A beleza da estética da ética. Se não for divertido, não é sustentável. Porque
a diversão nos leva ao afeto e o afeto que promove relações, e é nelas que aprendemos. Então
precisamos de diversão, precisamos brincar. Com terra não tem jeito, no final do dia acaba em

guerra de lama.”

O trabalho foi ético, horizontal e todos participaram. Não teve autoria, foi obra de todas as pessoas.
O maior traço positivo que o impacto pode atingir ao invés de ser exclusivo, seja inclusivo.
No dia que o ser humano conseguir trabalhar assim, todas as serão crianças como o Ravi, que nasceu
no mundo da participação e da colaboração e nesse mundo não se associa as palavras “veneno” e
“alimento”.

“Não existe comunicação sem afeto.” – Paulo Freire.

novembro 16, 2018
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