Belo monte, o espinho de concreto no coração da floresta

A usina de Belo Monte, é uma das histórias mais vergonhosas e covardes da história brasileira. Ela chega ao 7 ano desde sua licitação,  apoiada em um modelo energético ultrapassado, causando prejuízos irreparáveis ao meio ambiente, prejudicando milhares de famílias, alagando bairros e com verbas desviadas. Apesar da promessa de suprir 40 por cento da demanda nacional, produz cerca de 2 por cento. Afinal, porque faríamos algo tão absurdo quanto investir 20 Bilhões para destruir paisagens paradisíacas riquíssimas para fabricar energia? É o que pretendo examinar neste artigo.

Errar uma vez é humano, persistir no erro…

 

Uma das principais justificativas para a construção de Belo Monte era as secas das hidrelétricas, especialmente as localizadas na região sudeste. Esse assunto foi grande pauta nacional,  quando o governo foi pego de surpresa por secas históricas que chegaram a obrigar São Paulo a um racionamento de água.

 

Porém, sabemos que a seca sem precedentes que atingiu o Brasil nos últimos anos nada mais era do que o efeito devastador do desenvolvimento sem nenhum cuidado com o meio ambiente,que finalmente, conseguia fazer faltar água no país com mais água do mundo.

 

Ou como ressaltava o G1 em outubro de 2017:

 

 

 

“Ação humana contribuiu para seca sem precedentes na Amazônia, diz estudo

Esse fenômeno seria preocupante não só para a biodiversidade da Amazônia, mas poderia ter impactos sobre a falta de água em outras regiões do país. Cientistas já apontaram que o desmatamento na Amazônia prejudica a rota dos chamados rios voadores, grandes nuvens que levam a umidade para outras regiões do Brasil, incluindo as mais populosas como o Sudeste.”

 

Eis um fato que toda criança brasileira deveria aprender na escola, mas que parece que nossos políticos se esqueceram. O ciclo hídrico funciona em um equilíbrio perfeito com as florestas. As arvores estão ligadas  ao resfriamento da atmosfera que provoca chuvas finas, a retenção das águas na terra e a umidificação do ar. Obras que devastam o meio ambiente, como Belo Monte, só podem causar mais secas e outras tragédias climáticas.

 

Qual a estratégia no modelo atual para gerar energia quando o Xingu também secar? Explorar um outro rio, até que se consiga destruir o que resta da Amazônia?

Energia suja:

Fazenda Solar em Israel 

Em 2017 a Lava Jato descobriu um esquema de corrupção que repassou 1 por cento do total da Obra de Belo Monte ao PT e ao PMDB. Esse primeiro desvio encontrado representa um montante de cerca de 150 milhões de reais e explicam a opção do governo por fazer uma obra faraônica no interior da floresta com todos os custos ambientais, sociais e de transporte de energia envolvidos ao invés de investir em diversas formas inovadoras de criação de energia que surgem pelo mundo, ou nas energias solar e eólica que o Brasil tem alto potencial para explorar. É muito mais fácil roubar de uma única obra, do que em uma centena delas espalhada pelo Brasil.

 

 

A obra de Belo Monte

Em 2011, Célio Bermann, professor da Universidade de São Paulo (USP) especializado na área energética, resumiu a situação em entrevista:

 

“Não se trata de construir uma usina para produzir energia elétrica. Uma vez construída, alguém vai precisar produzir energia elétrica, mas não é para isso que Belo Monte está sendo construída. O que está em jogo é a utilização do dinheiro público e especialmente no espaço de cinco, seis anos em que o empreendimento será construído. É neste momento que se fatura. É na construção o momento onde corre o dinheiro. É quando prefeitos, vereadores, governadores são comprados e essa situação é mantida. Estou sendo muito claro ao expor a minha percepção do que é uma usina hidrelétrica como Belo Monte”. E depois: “Há as pessoas que ganham pela obra – fabricantes de equipamentos, empreiteiras. E há quem ganhe não financeiramente, mas politicamente, por permitir que essa articulação seja possível, porque é esse pessoal que vai bancar a campanha para o próximo mandato”.

 

 

Bermann tinha credenciais para afirmar o que afirmava. Ele havia participado dos debates da área energética e ambiental para a elaboração do programa de Lula na campanha de 2002 e foi assessor de Dilma Rousseff entre 2003 e 2004, no Ministério de Minas e Energia. Desfiliou-se do PT, segundo ele, quando “o bigode do Sarneyestava  estava aparecendo muito nas fotos”. Em 2011, declarações como as do professor, fora das redes socioambientais, eram fortemente desqualificadas. Quem apontava as já claríssimas contradições de Belo Monte era acusado de não compreender as necessidades do desenvolvimento do país.

Promessa fantasiosa, dura realidade

Pouco após realizar a concessão para que começassem as obras da Usina, o governo publicou uma matéria no site oficial do PAC que se chamava Belo Monte: Desenvolvimento com sustentabilidade. O artigo é uma ofensa a inteligência de qualquer pessoa com bom senso. Afinal, o que haveria de sustentável em se matar centenas de milhares de animais e arvores para se gerar energia em uma região que não precisa de energia com tantas outras opções disponíveis?!

O impacto ambiental nas proximidades

Em uma das passagens mais loucas diz o texto

“No caso da usina hidrelétrica Belo Monte, que será construída no rio Xingu na região de Altamira (PA), está sendo possível dar melhores condições sociais, econômicas e ambientais aos milhares de habitantes dos 10 municípios que estão direta e indiretamente na área de influência da obra. Para isso, além das contrapartidas previstas no licenciamento ambiental,  foi elaborado o Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável (PDRS) do Xingu, que conta com R$ 2,5 bilhões de recursos – R$ 2 bilhões do governo federal e R$ 500 milhões do consórcio Norte Energia S. A. (Nesa), responsável pelo empreendimento.

Bairro alagado por causa da inundação

“Estes recursos serão utilizados em ações como ampliação e melhorias de escolas, unidades de saúde, urbanização, projetos de capacitação da população, fomento industrial e comercial e construção de moradias, entre outras ações fundamentais para atender o aumento populacional na região e compensar e minimizar outros impactos trazidos pela chegada da usina”, explica Celso Knijnik, diretor de Programa do Departamento de Infraestrutura de Logística e de Energia da Secretaria do PAC (Sepac) do Ministério do Planejamento.Além disto, dos 516 km2 de área inundada, cerca de 228 km2 (44%) correspondem ao próprio leito original do rio. Isso fez com que a energia gerada fosse menor, mas que o projeto fosse ambientalmente sustentável, especialmente porque não alagará terras indígenas.”

O que realmente aconteceu eu jamais poderia contar tão bem quanto o documentário “Belo Monte: Depois da inundação” que conta as histórias das famílias e dos índios que perderam tudo por causa da hidrelétrica e mostra um pouco da destruição irreparável causada o meio ambiente.

Outro fato abordado no documentário é o que o Ministério Publico classificou como Etnocídio da cultura indígena.  Isso ocorreu quando os índios começaram a protestar e ocupar as obras por razão das condicionantes do projeto que nunca foram cumpridas e a concessionária realizou acordos individuais para comprar seu silêncio com “presentes” totalmente extranhos aquela cultura, que iam de habitações, a comida, televisores, barcos e gasolina e farmácias. Basicamente o que se produzia era a destruição da cultura indígena tornando seus habitantes dependentes. Para ir além e ter uma visão mais pessoas do que foi isso, vale a pena ler essa entrevista com Thais Santi e conhecer a aldeia Kawetee.

A aldeira Kawetee

Resistência indígena

A cerca de 6 meses atrás concedemos uma bolsa para receber em no Instituto Pindorama o índio Timei Assurini que vem de uma aldeia exatamente no local onde está sendo construída a usina de belo monte.

 

O relato dele sobre o que ocorreu lá é de fazer qualquer pessoa de bem se revoltar. Para calarem os índios, foram introduzidas na tribo alimentos industrializados com elementos viciantes ( como açúcar ou gluten), álcool, cigarros e diversas outras coisas. A tribo que tinha apenas 40 anos de contato, não estava preparada.

 

A morte do rio com o alagamento e somada aos vícios que vieram com o homem branco, provocou mudanças irreparáveis na cultura indígena. Muitos ficaram deprimidos, loucos, o que favorecia os vícios.

 

Além disso muitos índios morreram em decorrência de doenças que nunca tiveram antes ou foram assassinados.

 

Tudo que foi feito na aldeia, foi pensado para funcionar como na cidade, ou seja, um modelo que já se provou catastrófico para o meio ambiente.

 

O último passo dado pelo concessionária foi negociar e ceder barcos, dinheiro e outros bens para tribos tradicionalmente rivais desestabilizando o equilíbrio de forças na região em favor dos que aceitavam a usina.

 

Desesperados na busca por uma alternativa que permitisse a aldeia crescer sem degradar o meio ambiente, os índios que recebemos  criaram o projeto agenda awetee de troca de saberes. Tentando estimular o intercâmbio entre índios e “karaí” (como eles se referem ao homem branco) para  aprenderem a criar casas, plantar e ter progresso sustentável com o apoio de ciências ecológicas como a permacultura, bioconstrução e agroflorestal. Dessa forma pretendem criar um futuro para a região que não seja o que querem empresas que não dão a mínima para a floresta.

Uma batalha das mais difíceis  para qual eles estão pedindo ajuda e nós achamos um dos projetos mais incríveis ligados a sustentabilidade pra se ajudar no Brasil neste momento.

 

https://www.catarse.me/agenda_awaete

Reconhecemos um governante não pelo que ele diz, nem por como ele se comporta quando todos o estão olhando, mas por como ele cuida dos inocentes quando ninguém está vendo. A floresta é imprescindível a vida de várias formas, e ali vivem milhões de seres inocentes em um sistema perfeito e harmônico ( que muitos diriam divino). Mas a floresta não produz riquezas imediatas como sua exploração, ela pode nos dar apenas ar, agua e comida, não dinheiro. Que Deus tenha piedade de nós pelo que permitimos que fizessem com nossas florestas.

Abraços fraternos,

 

Marcel Segal Hochman

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